Último beijo

Hoje acordei cedo, e ainda que meio sonolento pude vislumbrar restos de um sonho já quase esquecido. Por mais louco que pareça, consegui indetificar detalhes de um momento que na realidade não foi vivido, tratava- se apenas de uma invenção da minha imaginação.

Assistindo de novo o sonho como se fosse uns vídeos de trinta segundos , numa linha do tempo toda desorganizada, ainda não renderizados com a edição final, vi uma cena que ficou ainda algum tempo na minha mente antes de estar acordado por completo.

Eramos nós dois, o completo vazio e um beijo. Eu já havia passado por tanta coisa desde o fim, que não consegui entender o porquê. Louco né? Sonhar com uma memória que já nem faz mais parte da realidade presente e que se fosse de minha escolha, teria escolhido não lembrar.

Então a grande pergunta encheu meus pensamentos pelo resto de tempo que me restava ali deitado antes de ter que encarar a rotina do dia que se iniciava. Como foi nosso último beijo?

Eu já não lembrava mais, já não conseguia acessar a memória do último beijo, a memória do último momento verdadeiro, se bem que, hoje em dia já aceitei que nunca vou saber o que foi verdade ou se houve mesmo algum momento de verdade nisso tudo. Eu acredito que sim, que houve verdade em alguns momentos porém houve também muito equívoco, e bem não é disso que vim tratar, vim tratar da memória, do momento, da vivência representada nesta caricatura em forma de sonho que nesta manhã simplesmente decidiu fazer pousada na minha mente.

O dia se apressava a começar e eu não podia mais permanecer parado, não podia mais devanear sobre os possíveis significados deste sonho enquanto a vida real acontecia sem esperar por mim. Me levantei. Claro que a imagem não saiu por um segundo da minha mente, nem mesmo quando eu estava rodeado por pessoas, quando eu estava rodeado de afazeres, distrações, nada.

Eu passei o dia negando a possibilidade de ainda sentir falta, ser a razão do sonho, também passei o dia me negando a pensar sobre e até fugindo da ideia de escrever esse texto.

Enfim a noite chegou, e na quietude da madrugada me vi com medo de dormir, e mesmo fugindo o dia inteiro me vi cercado por todos os lados e não consegui mais fugir do assunto. Então pensei, relembrei, remontei e revivi.

Seu gosto ainda era fresco, o sabor do beijo, do toque, sua pontas dos dedos calorosas pelo meu rosto enquanto a palma da mão sempre fria, mesmo no sonho ainda me fazia ofegar com a surpresa, mesmo depois de anos, sua proximidade sempre foi novidade.

Enfim acabou, e de novo eu acordei.

Mais uma noite que já soma quase uma semana, aquilo que antes era fuga, hoje me traz ansiedade de fechar os olhos e voltar pra dimensão do sonho, continuar de onde paramos, e a cada novo dia me surpreender com minha memória, que mesmo não sendo fiel à realidade, pois seu aroma é ainda muito mais hipnotizante, sua cor de neve como um lençol fino por sobre o sangue que te ruboriza com meu toque, é ainda muito mais belo, sua hesitação cheia de vontade é ainda muito mais convidativa, me traz a lembrança de que foi real, de que não era um sonho, um devaneio.

Não lembrar, não saber como ou quando, me traz o embrulho no estômago, como se ainda não tivesse acontecido. O último beijo!.

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